
Um amplo estudo internacional divulgado em fevereiro de 2026 concluiu que cerca de 38% dos novos casos de câncer registrados em 2022 — aproximadamente 7,1 milhões de diagnósticos — estão associados a fatores de risco que podem ser modificados, como tabagismo, infecções evitáveis, consumo de álcool, excesso de peso e poluição do ar. A pesquisa reforça que medidas de prevenção e políticas públicas eficazes poderiam evitar milhões de casos e reduzir significativamente a carga da doença no mundo.
A análise, coordenada por cientistas do Centro Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC) e da Organização Mundial da Saúde (OMS), combinou dados de incidência com informações sobre a prevalência de exposições uma década antes, para considerar o período de latência entre a exposição aos riscos e o surgimento do câncer. Foram avaliados 36 tipos de câncer em 185 países, e a estimativa final aponta que 7,1 milhões dos 18,7 milhões de novos casos em 2022 podem ser atribuídos a 30 fatores de risco potencialmente evitáveis.
Entre os fatores identificados, o tabagismo aparece como o principal responsável por casos que poderiam ser prevenidos, respondendo por cerca de 15% dos novos diagnósticos globais. Infecções — em especial por HPV e Helicobacter pylori — foram associadas a aproximadamente 10% dos casos, enquanto o consumo de álcool representou cerca de 3%. Os cânceres de pulmão, estômago e colo do útero figuram entre os mais ligados a causas evitáveis, e juntos correspondem a uma parte substancial das ocorrências que poderiam ser reduzidas com intervenções de saúde pública.
O estudo também mostra variações importantes por sexo e região. Globalmente, a proporção de casos atribuíveis a fatores modificáveis foi maior entre homens, em torno de 45%, comparada a cerca de 30% entre mulheres. Diferenças regionais refletem padrões de exposição específicos, como maiores índices de tabagismo em determinadas áreas, níveis variados de poluição do ar e disparidades na cobertura vacinal e em saneamento básico.
Os autores e especialistas consultados destacam que, apesar da complexidade da doença, existe um conjunto claro de ações comprovadamente eficazes para prevenção: controle rigoroso do tabaco, políticas que reduzam o consumo de álcool, programas de vacinação — especialmente contra HPV e hepatite B — melhorias no saneamento e no acesso à água potável, iniciativas para reduzir a poluição do ar e medidas de segurança em ambientes de trabalho. Essas políticas, combinadas com promoção de alimentação saudável, atividade física e estratégias de detecção precoce, têm potencial para reduzir de forma substancial a incidência e mortalidade por câncer.
Para o Brasil, as implicações são diretas: ampliar campanhas antitabagismo, fortalecer a vacinação contra HPV, combater a obesidade e controlar poluentes urbanos são medidas que podem baixar a parcela de casos evitáveis no país. Especialistas recomendam que gestores públicos utilizem dados locais para priorizar ações e que cidadãos adotem comportamentos preventivos, como não fumar, moderar o consumo de álcool, manter peso saudável, praticar exercícios e participar de programas de rastreamento quando indicados.
Os pesquisadores reconhecem limitações do levantamento, principalmente relacionadas à qualidade e à disponibilidade de dados em alguns países, além da necessidade de acompanhar mudanças nas exposições ao longo do tempo. Ainda assim, ressaltam que as evidências já disponíveis indicam caminhos concretos para políticas públicas e intervenções que podem salvar vidas e reduzir custos com o tratamento.
A mensagem central do estudo, divulgada na véspera do Dia Mundial do Câncer, é a de que uma parte significativa da carga global da doença é evitável. Prevenção, vacinação e políticas intersetoriais aparecem como as ferramentas-chave para transformar estatísticas em vidas poupadas, num convite para que governos, profissionais de saúde e a população atuem de forma coordenada.







