
Quase 30% dos cursos de Medicina no Brasil apresentaram desempenho insatisfatório na mais recente edição do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed), segundo dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). O resultado acende um alerta sobre a qualidade da formação médica no país, especialmente diante da expansão acelerada do número de faculdades nos últimos anos.
Ao todo, 351 cursos de Medicina foram avaliados. Desses, 107 receberam conceitos 1 ou 2, considerados insuficientes dentro da escala que vai de 1 a 5. Entre eles, 24 cursos obtiveram a nota mínima, enquanto 83 ficaram com conceito 2. O desempenho insatisfatório indica que menos de 60% dos estudantes desses cursos atingiram o nível de proficiência esperado pelo exame.
A avaliação contou com a participação de aproximadamente 89 mil estudantes, incluindo cerca de 39 mil concluintes, que estão prestes a ingressar no mercado de trabalho. O resultado, portanto, reflete diretamente a qualidade da formação dos futuros médicos e levanta questionamentos sobre os impactos desse cenário no sistema de saúde brasileiro.
Os dados revelam ainda uma grande desigualdade entre os tipos de instituições de ensino. Faculdades municipais apresentaram os piores resultados, com a maior parte de seus cursos classificados como insatisfatórios. Instituições privadas com fins lucrativos também concentraram uma parcela significativa das notas baixas. Em contrapartida, universidades públicas federais e estaduais se destacaram positivamente, com ampla maioria de seus cursos alcançando conceitos considerados bons ou excelentes.
Diante do desempenho abaixo do esperado, o Ministério da Educação informou que os cursos mal avaliados poderão passar por processos de supervisão e sofrer sanções. Entre as medidas previstas estão a suspensão temporária da abertura de novas vagas, a redução do número de estudantes admitidos e restrições à participação em programas federais de financiamento e bolsas. Segundo o MEC, as ações têm caráter corretivo e buscam garantir padrões mínimos de qualidade, sem prejuízo imediato aos alunos já matriculados.
Especialistas em educação avaliam que os resultados do Enamed reforçam a necessidade de maior rigor na autorização e no acompanhamento dos cursos de Medicina, uma área que exige alta qualificação técnica e formação prática consistente. Para eles, a expansão do ensino médico precisa ser acompanhada de investimentos em infraestrutura, corpo docente e campos de estágio, sob risco de comprometer a qualidade da assistência à saúde no país.
A divulgação dos dados coloca o debate sobre o ensino médico novamente no centro das discussões sobre políticas educacionais e de saúde pública. O desempenho insatisfatório de quase um terço dos cursos evidencia desafios estruturais e reforça a importância de avaliações periódicas para orientar decisões e promover melhorias na formação dos profissionais responsáveis pelo cuidado da população.








